Baleia Falante
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quinta-feira, 17 de maio de 2012 15:13 0 baleias nadaram aqui

Quero
por Drummond

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de te o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amaste antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos não-amor.

Euteamo, euteamo, euteamo!
meu Caio.

Dispara-me o coração. Não deixa sequer um segundo passar despercebido. Pulsa; jorra; bombeia. A explosão se dá por volta de um minuto e permanece por horas seguidas e repetidas. As vontades escapam e os sonhos se esvaem. Perco-me e envolvo no abismo que é a desilusão. Depois de tanto ardor, meus olhos cansam de não distinguir cores e nitidez, minha boca já não pronuncia mais sons. Meus seios arrepiados dançam ao ritmo da respiração descontrolada e machucada. Contorço-me, até me colocar no lugar de um feto. Tento lembrar onde foi que eu aprendi o significado de esperança.

Mas qual é o valor de superar, extrapolar, ir além?É maior que o prazer de duvidar?
É maior que o (des)prazer de chorar.

“Amar o perdido deixa confundido este coração (...)
As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão (...)”

Parte de mim parece insistir em doer eternamente.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012 19:20 2 baleias nadaram aqui
Já desejei que as minhas palavras fossem soletradas, letra por letra, desde que tivessem o alcance do estrondo de um trovão. Não só almejei, como decidi me calar. Porque é o silêncio que se percebe, que se sente e que, sinceramente, se diz sem esforço. Sem ar, sem som e nem força. Apenas um sentimento cansado ou fingido. Uma música não composta, um pôr-do-sol sem aplauso, um mar sem onda.
Sou eu, só que sem você.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011 22:29 1 baleias nadaram aqui
Existir é tão completamente
fora do comum que,
se a consciência de existir
demorasse mais de alguns segundos,
nós enlouqueceríamos.

A solução para esse absurdo
que se chama "eu existo",
a solução é amar um outro ser que,
este, nós compreendemos que exista.

Clarice.
Imersa.
Tomada da cabeça aos pés. Engolida por aquilo que não tem cheiro, por aquilo que não acaba e que nem tem nome. Só mastiga. Que me divide em mil gotas que, ao caírem, perdem o som. Perdem a origem, perdem-se no abismo. Enquanto o tempo dá uma volta completa, tentam se reconstituir e, de repente, se veem em um formato ondulado e salgado. Uma fuga. Uma imensidão confusa, mas que vai e volta. Que não devolve nunca as mesmas cores, os mesmos ruídos, as mesmas conchas. E foi quando a volta do relógio se fez é que me fiz dos grãos de areia branca em pérola. Negra, mas ainda pérola.
sábado, 22 de outubro de 2011 12:18 0 baleias nadaram aqui
Disseram-me uma vez que uma imagem vale mais que mil palavras, que a simples fotografia do álbum, já ondulada pelo tempo, nostalgia anos e mais anos. Mas e quando o que tenho não consegue me saciar, não permite que essa dor inconsolável que habita no meu peito fuja com um sopro de meus pulmões, com um suspiro adiantado ao máximo? Não me basta só a recordação. Almejo algo que vem de fora, que me tome meus pés, meu sangue, meus cílios, e que me faça levitar, ultrapassar essa seda do alto que brinca de ser ora azul, ora negra. E que essa seda porte porcelanas molhadas, para que caia os pingos de água doce. Porque é da chuva que nasce a vida.

Graça, tudo aquilo que não vem de graça.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011 11:20 0 baleias nadaram aqui
Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta. O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa da sua feiúra.

// Chico Buarque em Leite derramado, Companhia das Letras.
ANTIGAS


Marcela Haun


"Escreva sobre tudo, até da baleia falante que está louca para sair da sua imaginação."

Jornalista e canceriana, pede para vida ser mais lenta do que não aparenta ser. De olhos dengosos e nariz gelado, espera que sonhos e almejos se realizem. Ama teatro, cinema, arte e Chico Buarque. Não suporta calor, mentiras ou partes duras da gelatina. Tem medo, mas acredita que o destino lhe reserva algo doce. Quer ser atriz, para poder representar as várias formas de se viver. Ama quando começa a chover e ver as gotas fazendo cócegas na superfície do mar.

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